Sobre mim
Simone Borges
Quando passamos a olhar para a nossa vida a partir de outra perspectiva de tempo, percebemos situações que jamais imaginaríamos que um dia fariam parte das muitas camadas da nossa trajetória.
Quando penso em quando começou a minha relação com a Psicologia, costumo voltar muito antes da universidade.
Minha avó era voluntária em um bazar que funcionava junto a um lar para pessoas idosas. Desde os meus seis anos, eu frequentemente a acompanhava e passava ali uma parte considerável do meu tempo. Tenho algumas memórias muito vivas desse período: sentar no jardim e ouvir as histórias dos idosos, acompanhar suas conversas ou brincar de boneca com uma senhora que adorava brincar comigo.
Hoje consigo olhar para aquela menina e perceber que, muito antes de conhecer qualquer teoria psicológica, eu já estava aprendendo algo que continua sendo central no meu trabalho: escutar com atenção, estar presente e me interessar genuinamente pelas histórias das pessoas.
E há um detalhe curioso nessa história. Minha mãe escolheu meu nome por causa de uma cantora. Eu não canto, mas, muitos anos depois, ao fazer aquelas pesquisas sobre o sentido dos nomes, encontrei algo que me fez sorrir: Simone pode ser associado a “aquela que ouve”. Talvez minha mãe tenha acertado por caminhos que nenhuma de nós poderia imaginar.
É claro que aquela garotinha não fazia ideia de onde tudo isso a levaria.
Hoje sou psicóloga brasileira em Berlim e ofereço acompanhamento psicológico em português, presencialmente em Berlim e online para brasileiros que vivem em diferentes países, com atendimentos individuais, de casal e familiares. Meu trabalho se dirige também a brasileiros que vivem no exterior e atravessam questões relacionadas a relações, identidade, pertencimento, imigração, família e mudanças de vida.
Da educação à Psicologia
Ainda jovem, cursei Magistério, uma formação técnica voltada à educação infantil e aos primeiros anos escolares. Foi um curso intenso, integral e cheio de experiências que poderiam, por si só, render muitas histórias.
Foi nesse período que conheci uma professora de Psicologia da Educação. A disciplina despertou algo em mim. Eu me interessava por muitas áreas, mas havia alguma coisa na Psicologia que me intrigava especialmente.
Pedi então a essa professora que me deixasse acompanhá-la como voluntária em seu outro trabalho. Ela também atuava como psicóloga em uma APAE, acompanhando pessoas com diferentes deficiências e necessidades de suporte.
Depois dessa experiência, minha escolha ficou muito mais clara: decidi cursar Psicologia.
Uma formação movida pela curiosidade
Na universidade, mergulhei profundamente na área.
Além da graduação em Psicologia, fui aluna especial em disciplinas de outras universidades, participei de duas iniciações científicas, colaborei na organização de congressos, trabalhei com validação de instrumentos psicológicos e escrevi trabalhos acadêmicos.
Mais do que acumular experiências, eu queria compreender as diferentes maneiras pelas quais a Psicologia poderia se aproximar da vida das pessoas.
Com o tempo, meu interesse foi se direcionando cada vez mais para a área da saúde.
Realizei uma Residência Multiprofissional em Saúde, uma formação intensa de dois anos e três meses, com cerca de 60 horas semanais entre prática e teoria. Nesse período, pude conhecer diferentes níveis de atenção do Sistema Único de Saúde brasileiro, desde o cuidado direto até questões relacionadas à organização e à gestão dos serviços.
Essa experiência foi fundamental para a maneira como compreendo hoje saúde, relações e sofrimento.
Aprendi que não é possível compreender uma pessoa de forma isolada do contexto em que ela vive.
Pessoas, territórios e formas diferentes de cuidar
Depois da residência, passei a trabalhar na Atenção Básica.
Ali participei de projetos bastante diversos e, muitas vezes, pouco convencionais. Foi também um período importante para compreender que cuidar nem sempre significa esperar que as pessoas cheguem até um serviço da maneira que imaginamos.
Em determinado território, por exemplo, percebemos que muitos homens praticamente não procuravam os serviços de saúde.
Em vez de concluir simplesmente que “homens não cuidam da saúde”, começamos a perguntar o que havia naquela relação entre os homens, o território e os próprios serviços que dificultava esses encontros.
Se eles não chegavam até nós, precisávamos experimentar outras formas de chegar até eles.
Foi assim que participei de ações de saúde realizadas inclusive em bares do território — espaços onde esses homens já estavam e onde outras conversas puderam acontecer.
Essa experiência permaneceu comigo.
Hoje, no acompanhamento psicológico individual, também recebo homens atravessando questões relacionadas a relacionamentos, paternidade, trabalho, imigração, solidão, pertencimento, mudanças de vida e dificuldades que nem sempre encontram espaço para serem conversadas.
Não parto da ideia de que exista uma única maneira de ser homem ou de viver masculinidades. Interessa-me compreender como cada pessoa foi construindo sua forma de se relacionar consigo mesma, com outras pessoas e com as expectativas presentes nos contextos em que vive.
Ao longo desse período, também acompanhei mulheres, gestantes e pessoas em diferentes momentos da vida.
O público que encontrei em minha trajetória sempre foi diverso.
Também participei da organização de ações e eventos voltados à população LGBTQIA+, experiência que ampliou meu contato com diferentes maneiras de viver identidade, gênero, sexualidade, relações, família e pertencimento.
Pessoas LGBTQIA+ são bem-vindas no meu trabalho.
Atendo individualmente pessoas LGBTQIA+, assim como casais e famílias com diferentes configurações, sempre procurando respeitar a forma como cada pessoa nomeia e vive sua própria experiência.
Raça, cuidado e aprendizado contínuo
Ao longo dessa trajetória, a questão racial também foi deixando de ser algo que poderia permanecer apenas no campo das ideias e passou a exigir de mim uma atenção mais consciente e contínua.
Tive a oportunidade de participar de experiências de aquilombamento na saúde mental, espaços de encontro, reflexão, fortalecimento e construção coletiva que ampliaram minha compreensão sobre como o racismo atravessa subjetividades, relações, instituições e possibilidades de existência.
Essas experiências me aproximaram de processos de letramento racial que não considero concluídos.
Sigo estudando, escutando, revendo referências e entrando em contato com perspectivas que me ajudam a reconhecer como raça, racismo, branquitude e desigualdades sociais podem atravessar tanto a vida das pessoas quanto os próprios espaços de cuidado.
Para mim, esse é um aprendizado contínuo e necessário.
Não considero raça, gênero, sexualidade, classe social, migração ou pertencimento cultural detalhes periféricos de uma história. Quando essas dimensões fazem parte da experiência de uma pessoa, elas também podem fazer parte da conversa.
Psicologia Social e a compreensão de que saúde mental é relacional
As experiências que eu vivia na prática despertavam cada vez mais perguntas.
Foi assim que decidi voltar à universidade e fazer um Mestrado em Psicologia Social.
Minha pesquisa se aproximou da questão da moradia — algo que, à primeira vista, poderia parecer distante da Psicologia, mas que revela muito sobre como vivemos.
Onde moramos, com quem moramos, em quais condições vivemos, quais recursos temos disponíveis e quais possibilidades existem ao nosso redor também atravessam aquilo que chamamos de saúde mental.
Essa experiência aprofundou uma compreensão que permanece muito presente no meu trabalho: a experiência humana é relacional e está atravessada por inúmeros contextos sociais, históricos, culturais e políticos.
Não somos pessoas que existem separadas do mundo.
Nossa história, nossas relações, o lugar onde vivemos, nossa origem, raça, cor da pele, gênero, orientação afetivo-sexual, condições materiais, idioma, cultura, país de origem e país de residência participam das possibilidades que construímos ao longo da vida.
Racismo, desigualdades sociais, migração, gênero, sexualidade, condições de trabalho e ausência ou presença de uma rede de apoio não são elementos externos à experiência de uma pessoa.
Eles podem atravessar profundamente a maneira como alguém se percebe, se relaciona, pertence, é reconhecido e encontra — ou não — possibilidades em determinados contextos.
Essa compreensão também se tornou especialmente importante no trabalho com brasileiros que vivem no exterior.
Mudar de país pode transformar relações, referências culturais, identidade, carreira, parentalidade, vínculos familiares e a própria sensação de pertencimento. Às vezes, viver fora também nos coloca diante de perguntas que antes não precisávamos fazer.
Quando os diagnósticos deixaram de ser o centro da conversa
Depois do mestrado, voltei novamente para a prática em saúde mental.
Atuei em um CAPS III Adulto, serviço voltado ao acompanhamento de pessoas com experiências complexas de sofrimento psíquico, e também tive experiência em um CAPS que trabalhava com questões relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
Encontrei pessoas que haviam recebido os mais diversos diagnósticos ao longo da vida.
Mas foi justamente nesse contexto que algo importante se tornou ainda mais claro para mim.
Quanto mais eu escutava suas histórias, menos conseguia enxergá-las apenas a partir de categorias diagnósticas.
Voltava, de alguma maneira, àquela menina sentada no jardim ouvindo pessoas mais velhas contarem suas histórias.
Eu encontrava pessoas.
Pessoas fazendo escolhas dentro das possibilidades que tinham naquele momento.
Pessoas tentando viver, se relacionar, pertencer, sobreviver, mudar ou encontrar outros caminhos.
Algumas escolhas produziam sofrimento. Alguns sofrimentos surgiam das relações. Outros estavam profundamente ligados a condições sociais, históricas, políticas, econômicas ou culturais.
Foi ficando cada vez mais difícil, para mim, separar aquilo que chamamos de “saúde mental” de tudo aquilo que acontece ao redor de uma pessoa.
Clima, migração, racismo, gênero, sexualidade, condições de trabalho, país de origem, país de residência, redes de apoio e relações familiares podem participar profundamente da maneira como vivemos e construímos sentidos para nossas experiências.
Ignorar essas dimensões seria reduzir demais a complexidade de uma vida.
Relações, casais e famílias
Se compreender uma pessoa já envolve muitas camadas, compreender aquilo que acontece entre pessoas é ainda mais complexo.
E foi justamente essa complexidade das relações que despertou meu interesse por uma nova formação voltada ao trabalho com casais e famílias.
Aprofundei ferramentas para acompanhar diferentes configurações familiares e conjugais, sempre a partir de uma perspectiva relacional.
Hoje meu trabalho inclui acompanhamento psicológico individual, de casal e familiar, em português.
No trabalho com casais, podem aparecer questões relacionadas a comunicação, conflitos recorrentes, intimidade, parentalidade, diferenças culturais, imigração, reorganizações da vida a dois e decisões importantes sobre a relação.
Também acompanho casais LGBTQIA+ e casais interculturais, respeitando diferentes maneiras de construir vínculos, conjugalidade e família.
No trabalho com famílias, procuro partir de uma compreensão ampla de família, que pode incluir diferentes gerações, famílias recompostas, famílias LGBTQIA+, famílias interculturais, relações entre família de origem e família escolhida e mudanças decorrentes da experiência de viver em outro país.
Atendo presencialmente em Berlim e online para brasileiros que vivem no exterior, de acordo com as condições aplicáveis ao local onde a pessoa se encontra.
Como compreendo meu trabalho hoje
Minha forma de trabalhar é influenciada especialmente pelo Construcionismo Social e por perspectivas relacionais e dialógicas.
Isso significa que não parto da ideia de que existe apenas uma maneira correta de compreender uma pessoa, uma relação ou uma história.
Interessa-me conhecer:
- os sentidos que a pessoa atribui às próprias experiências;
- as relações das quais participa;
- os contextos que atravessam sua vida;
- as histórias que foram se tornando mais fortes ao longo do tempo;
- as expectativas sociais e relacionais que participam dessas histórias;
- e também aquelas possibilidades que talvez ainda não tenham recebido espaço suficiente.
Perguntas ocupam um lugar importante no meu trabalho.
Não porque eu tenha respostas prontas sobre a vida de alguém, mas porque uma pergunta diferente pode, às vezes, permitir que uma história seja vista de outra maneira.
Também não parto da ideia de que a profissional esteja fora da conversa observando tudo de forma neutra.
Cada encontro é construído na relação.
Por isso, procuro trabalhar com curiosidade, respeito e atenção à maneira como cada pessoa compreende a própria experiência.
Tenho interesse pelas palavras, pelas relações, pelas histórias e pelas inúmeras possibilidades de sentido que construímos ao longo da vida.
Acompanhamento psicológico em português para quem vive fora
Viver no exterior pode trazer possibilidades, descobertas e movimentos importantes, mas também pode reorganizar profundamente aquilo que antes parecia familiar.
Mudar de país pode significar reconstruir redes de apoio, aprender outra língua, rever a própria identidade profissional, lidar com saudades, criar filhos longe da família, construir novas amizades, enfrentar diferenças culturais ou descobrir que um relacionamento também muda quando o contexto ao redor muda.
Para algumas pessoas, aparecem perguntas sobre ficar ou voltar.
Para outras, sobre quem se tornaram depois da mudança.
Para casais, podem surgir diferenças sobre adaptação, trabalho, parentalidade, pertencimento ou sobre qual país poderá ser chamado de casa.
Por isso, parte do meu trabalho hoje está voltada ao acompanhamento psicológico em português para brasileiros que vivem no exterior, tanto individualmente quanto em casal ou família.
Poder conversar na própria língua, especialmente sobre experiências complexas e relacionais, pode ter um lugar importante nesse processo.
Com leveza
Depois de tantos caminhos, formações, instituições, pessoas e histórias, talvez uma das maneiras mais simples de explicar quem sou profissionalmente seja esta: sou uma curiosa sobre os seres humanos.
Gosto de estar presente nas narrativas de vida das pessoas, compreender os contextos em que essas histórias foram sendo construídas e participar de conversas que possam abrir outras possibilidades.
Não acredito em uma vida sem conflitos, mudanças ou desconfortos.
Também não acredito que exista uma única forma correta de viver uma relação, construir uma família, experimentar uma identidade ou escolher um caminho.
Acredito que podemos construir outros sentidos para aquilo que vivemos, ampliar possibilidades e construir relações diferentes com nossas histórias, com as pessoas que fazem parte delas e conosco mesmos.
E talvez seja justamente aí que esteja, para mim, a possibilidade de um viver com mais leveza.
