Bilinguismo, emoções e rotina na primeira infância
Esse texto foi escrito por uma pessoa humana.
Existem diversos tipos de famílias e casais. Este texto é voltado a casais brasileiros com filhos que vivem fora do país de origem. Cada núcleo familiar possui suas especificidades, e não há aqui a pretensão de esgotar o tema.
Nesse contexto multicultural, é comum que surjam questionamentos como: “Isso é normal para a idade?”, “Meu filho vai se adaptar à escola e ao novo idioma?”, “Como manter o português sem prejudicar o aprendizado da nova língua?”, “Como equilibrar a cultura brasileira com a cultura local?”. Essas dúvidas, naturais em qualquer processo de parentalidade, costumam se intensificar diante da migração e das exigências da vida em outro país.
A proposta deste texto é oferecer informações concisas e cientificamente embasadas sobre o desenvolvimento infantil na primeira infância e sobre o funcionamento do cérebro bilíngue — especialmente para pais que enfrentam o desafio de criar filhos em um contexto de bilinguismo e diversidade cultural.
Duas línguas, um cérebro: Como funciona o cérebro bilíngue da criança
Um ponto de partida essencial quando há uma criança por perto é conhecer minimamente os marcos do desenvolvimento infantil. A internet está repleta de conteúdos diversos, mas é fundamental buscar informação de qualidade que oriente um olhar crítico e acolhedor, sensível às necessidades reais da criança.
Para uma criança em idade pré-escolar (ou kindergarten, como se diz na Alemanha), esse é o momento de contato mais intenso com um mundo novo e desafiador. Antes de uma avalanche de preocupações, proponho uma pausa para reflexões que ajudem a contextualizar o comportamento infantil — e isso é crucial ao se falar de crianças: compreender o contexto do seu comportamento.
Perguntas como: “Quanto tempo de convívio minha criança teve com outras crianças e com a família extensa?”, “Ela é filha única ou tem irmãos?”, “Ela domina o idioma dos pais?”, já oferecem um panorama útil para interpretar reações e atitudes diante de novas situações.
É esperado que a criança, nesse cenário, sinta medo, vergonha ou raiva. Esses sentimentos são comuns — mas não se espera que ela consiga identificá-los e regulá-los sozinha. Por isso, a orientação parental, especialmente em situações de conflito (como vestir um casaco num dia frio), pode trazer alívio para o cotidiano quando conduzida com escuta e estratégias construídas em conjunto.
Em casos de bilinguismo, é importante entender como o cérebro infantil opera nesse contexto. Pesquisas neurocientíficas demonstram que a experiência bilíngue modifica o cérebro ao longo do tempo: estruturas cerebrais, conexões neurais e até concentrações de metabólitos associados à reorganização sináptica diferem entre bilíngues e monolíngues. Isso sugere que gerenciar duas línguas diariamente exige adaptações cerebrais contínuas, especialmente em áreas ligadas ao controle executivo, atenção e flexibilidade cognitiva — capacidades fundamentais para o aprendizado escolar e social (PLIATSIKAS et al., 2021).
A segurança emocional, por sua vez, é sustentada por vínculos confiáveis. Crianças que mantêm relações afetivas estáveis com seus cuidadores desenvolvem maior capacidade de autorregulação emocional — uma base que influencia toda a vida (UNICEF, 2019). E é justamente nesse espaço de segurança que a criança libera suas tensões acumuladas: frustrações com a língua nova, com regras culturais, com colegas que não compartilham o mesmo idioma, ou mesmo com pequenos desafios do cotidiano.
Saber quem busca na escola, o que acontecerá depois do horário escolar e oferecer um lanche nutritivo são estratégias simples que contribuem para maior previsibilidade e regulação emocional.
Alimentação e energia para aprender: a nutrição como aliada do cérebro infantil
O cérebro consome grande quantidade de energia em todos os processos cognitivos. Nutrientes como ômega‑3, vitaminas do complexo B e colina são essenciais para memória, atenção e aprendizagem (UNESCO, 2023). Em famílias bilíngues, refletir sobre a alimentação das crianças é uma ação estratégica que complementa os cuidados com o desenvolvimento neurocognitivo.
Do ponto de vista construcionista social, a adaptação da criança no novo país não se resume à aquisição de um idioma — trata-se de reconstruir sentidos, práticas e vínculos culturais por meio da interação com o ambiente escolar e familiar.
Depois da tensão inicial dos pais, surge o desafio de viver entre duas culturas — muitas vezes, em um idioma que nem os adultos dominam plenamente. Nesse contexto, uma verdade permanece: o que uma criança mais precisa em seu processo de desenvolvimento é segurança. Segurança nos vínculos, na rotina e nos idiomas de referência. Uma criança segura aprende melhor, adapta-se com mais leveza e constrói pertencimento em seu novo universo.
Indicação de Filme:
Minari — Em Busca da Felicidade (2020)
Referências
PLIATSIKAS, Christos et al. Bilingualism is a long-term cognitively challenging experience that modulates metabolite concentrations in the healthy brain. Scientific Reports, v. 11, n. 1, p. 1-10, 2021. DOI: 10.1038/s41598-021-86031-0.
UNICEF. Desenvolvimento infantil. Brasília: Fundo das Nações Unidas para a Infância, 2019. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/desenvolvimento-infantil. Acesso em: 16 dez. 2025.
UNESCO. Nutrição e cognição na infância. Paris: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2023. Disponível em: https://www.unesco.org/en/articles/nutrition-childhood. Acesso em: 16 dez. 2025.
